Desde a primeira comemoração do meu nascimento foi assim: bolo branco e preto recheado com frutas em calda e coberto com glacê cozido com gotinhas de limão, muito refrigerante e pizza de sardinha, com aquela massa fofa, alta, feita em casa. Tudo obra da minha avó. Quando minha irmã nasceu, dois dias antes do meu aniversário, os bolos ficaram maiores e os cachorrinhos foram incluídos no cardápio da festa. Tudo com a supervisão dela.
Na minha infância, nunca me preocupei muito com o aniversário dessa figura. Afinal, ela existia para preparar a minha festa _ egoismozinho perdoável, afinal, eu era uma criança. Mas hoje é diferente. Ao completar 84 anos, ela não prepara mais bolo, salgadinho, doce ou glacê. Também não come mais nada disso; substituiu quase tudo por bolachas, pêra, leite de soja e frango grelhado. Não espera convidados, pois nem lembra direito que hoje é o dia do seu aniversário.
Com 84 anos, ela não é mais a pessoa de antes. No lugar de uma mulher simples, tímida e forte, que cuidava do marido e ajudava na criação das netas, ficou uma velhinha frágil, com um marca-passo no peito. Uma caixa cheia de remédios e uma memória traiçoeira a acompanham no singelo cotidiano, dentro dos limites seguros da casa que ainda se orgulha em chamar de sua. Se a gente pergunta, ela conta sobre o trabalho de tecelã na fábrica Reinghantz, nos anos 40, a infância no interior de Canguçu, as agruras e delícias que viveu para criar com dignidade o filho único, meu pai. Mas se ninguém perguntar, ela nem fala sobre isso. Comenta das plantas que estão a morrer, dos gatos imaginários que comem seus passarinhos, das pessoas imaginárias que desfilam pelo seu quintal e roubam-lhe os panos-de-prato. E lembra, de vez em quando, que perdeu o marido. E conta toda a história da morte, mais uma vez.
Conviver com ela nem sempre é fácil. Falta paciência para tolerar os efeitos do tempo. E sobra tristeza por comprovar que nada se pode contra os anos. Que o diga minha pequena família, que a vigia todos os dias. Mas hoje é seu aniversário, dia especial. Mais um ano que ela conseguiu roubar do tempo, mais um ano que ela, sorrateira, usurpou da morte. Apesar disso, não vou vê-la hoje. O trabalho me prende a Porto Alegre, tenho compromissos, horários, pendências. E ela está em Rio Grande, tão longe pra quem já tem 84...
No meu coração, vou desejar-lhe paz e, se for possível e justo, mais um pouco de tempo. Ao telefone vou sorrir, vibrar, cantar os parabéns. Sei que não é suficiente, mas ela vai ficar feliz com minha ligação. Vai saber que não esqueci dela, vai se sentir especial. Pelo menos até a hora em que mais um daqueles gatos infernais passar pelo pátio, perseguindo seus passarinhos...
quinta-feira, 17 de abril de 2008
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Um comentário:
Lindo! Loca...sou tua fã! Tens q publicar num livro e não só no blog essas coisas que escreves! Sabes como ninguém contar a vida das pessoas! Colocas de forma simples, respeitosa e cheia de carinho aquilo que caracteriza os teus personagens. Na real, loca, escreves com o coração e com a alma, porque fazes aquilo que amas!
Te amo, seu animal!
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